segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Encontro de Algumas Faces

As estrelas brilhavam e você não via
seria alegria ou apenas arrancavam,
os dedinhos de minhas mãos,
tua atenção, quando te tocavam?

O caminho é louco,
e a vida é tão curta.
Ah, shortinhos que furta
este meu tempo pouco!

Lima, imã, maçã, romã.
Tantos gostos tem tua pele
que quero que me chancele
teu experimentador oficial!

Linda, lindeza de abrolhos!,
lindeza de nada banal,
sabe.. não é bem normal
eu dizer: tu és linda! E, ah, teus olhos...

Encontro-te e me desencontro:
teu rosto é todo danado,
sei que já não posso fugir,
eu te respiro em pecado
e você ainda me mata de rir!
Este poema me marca algum ponto?

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Olhos de ressaca

Esverdeado, teu olhar arranca
como a ressaca do mar
que vai e volta e traga
e nele me faço embrenhar.

Teu nome, tão forte, tão belo,
Rígido e calmo,
um flagelo,
de um triste poeta sonhar.

Conheci-a, nem sei bem por onde...
Não lembro nem a circunstância!
Talvez seja esta a constância
que o teu corpo ainda me esconde.

E ainda que fosse distante,
com tua boca colada a minha,
A mão, tua língua, nossa rinha,
já não seria um só instante.

Se permaneço no seu lembrar breve,
bem disse-me, sempre se lembra,
teu toque, tua luz, tua verve,
o meu coração já desmembra!

Talvez foste só uma moça,
que no meu caminho passou,
mas a tua lingua me adoça,
e só sigo porque já me levou.

A Ilha

Amei-te primeiro em poema,
depois descobri teus heróis.
E foi vendo quem lhe condena
que amei mais teus arrebóis.

A impulsão da história,
parida em teus braços fortes,
nos deu a ilusão da vitória,
perdida em torturas e choques.

Sem folga, num claustro tão teu,
oh seio, oh terra mulata!,
combinando os crentes e ateus,
assustou todo aristocrata.

A “gramna” que cresceu no azul,
e montou e subiu a sierra,
fez brilhar o cruzeiro do sul,
fez tremer todo dono de tierra.

Je suis Fidel a ti
querida irmã, mas sei
Che ancora existem aí
burocratas e decretos-lei.

Defendo-te com sangue e brasas!
Meu corpo cansado e suado
na frente de ianques e caças
é todo teu, é todo armado.

Amo-te com esperanças,
amo-te e minha fé aduba,
amo-te em minhas vinganças,
sonho-te e nada derruba:

se és livre, se és Cuba!

Anatol

 Conheci-o por intermédio de Tolstoi. Era madrugada, daquelas frias, assim costumavam ser nossos encontros. Lembro-me de fragmentos. Intactos. Eu torcia pelo amor doce da moça. O mais puro amor, o amor sublime, o amor longínquo, o amor juvenil, o amor leve, o amor esperançoso, o amor-amor.
Desprezei-o desde o início, tal como desprezo os que como ele são: a altivez, o sentimento de superioridade, a desonestidade, o desrespeito. Talvez não fizesse por mal, talvez fosse até verdadeira a falsidade que jorrava de seus lábios. Lágrimas de uma fonte seca. Porém, a afronta ao doce amor da meiga menina pelo homem imperfeito, o destoar, a quebra do disco, me incomodou. Suava frio, teimava só, discutia comigo, brigava, batia, queimava... Tentava desfazer o que já estava feito: já havia conquistado a moça com sua lábia vazia e enganadora. Lamentei. Só.
Qual foi meu desprazer ao encontrá-lo pela segunda vez tempos depois? Era domingo. Ignoro as circunstâncias, se estava quente, frio, fazia sol ou chuva pouco importa. Eu estava em névoas. Meu corpo destroçado, um empilhar de ossos que meus músculos não mais sustentavam, encarquilhou-se. Minha visão turvou, meu coração gélido teimando em bater – eu torcia para que ele parasse. Não lhe bastava a doce menina, a ele interessavam todas elas: calhou dele gostar do mel de uruçu. Seu rosto só me apareceu depois: o sorriso ignominioso, de deboche prévio, aquela alegria por gerar tristeza. Não serei tão rígido: aposto que estava convencido de que aquilo não fazia mal a ninguém. Sua ignorância o impedia de perceber que suas ações afetavam outras pessoas, que suas torpezas poderiam resultar malefícios. Iludiu-a. Tormentou-me. Sempre estarei em tormentas. A confiança se esvai num tocar de lábios, os lábios sujos de um sorriso vil.
Tropeguei. Não superei. Não superarei. Para ele, os custos foram poucos: um sorriso, frases, clichês. Para nós, a esperança confidencial.

Não o vi uma terceira vez. Nem preciso. Seu retrato está talhado em meu pedregoso coração.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Caminho

Minha visão se estreita
mente aberta, casa afeita,
feito gato me aproximo.

Disto três ou quatro léguas
balançar de suas pernas.
Pouco sei onde me arrimo.

Pode estar perto ou distante,
nem mesmo sei se aqui ou adiante.
Permaneço, me aqueço, me afirmo.

E quando enfim te encontrar,
Nem uma bagata me afastará,
teu corpo inteiro, tudo imagino.

Quando cansado me for deitar,
fausto e farto por te alegrar,
serás o meu sorriso malino.

A te animar em cor de rosa,
em tua coxa tão ardilosa,
o meu suor, teu desatino.

Começará uma história,
tua esperança, minha memória,
num só sorriso que bem preciso.

Fazer-te-ei o meu abrigo,
o meu cantinho, o meu castigo,
tão livre, tão solta, mas tão comigo.

Prazer!

vivo em meus poemas o que não
vivo em vida.
viva em meus poemas
toda a sua angústia
ardida
porque enquanto goza
e corre e trepa
um pobre poeta se estrepa
e te lembra da dor,
mas bem de longe!

Se esta dor já não te afeta,
Prazer! Sou o teu poeta.

Breve razão de poetizar por aqui.


Há sempre um algo novo em todo manifestar. Porém, nem todo manifestar inova. Só faz sentido escrever algo para ser lido quando esse algo sai da esfera do meramente particular para o universal do coletivo. Eu sinto, eu choro, eu gozo, eu sofro, eu quero, sem nem saber ou importar-me com a importância disso para o mundo. No entanto, o intuito de escrever num blog como esse, para além de rasgar-me e expor meus fracassos, é compreender-me. Tudo que escrevo são os meus fracassos. E, tal como Darcy Ribeiro, talvez neles estejam minhas maiores vitórias. Sintam-se em casa, ponham os pés nos sofás e mergulhem nas escrivinhanças deste escritor casmurro e um tanto quanto despojado.

Viva a poesia!