sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A uma mulher, de Victor Hugo(1802-1885) - Tradução

Pequena! Sendo rei, dar-te-ias o império,
Carruagem, cetro, e meu povo de joelho,
E mi’a corrente d’ouro, meus banhos de porfírio,
E mi’as frotas, a quem o mar não é desidério,
Pra ser teu espelho.

Se eu fosse Deus, a terra e o ar com as ondas,
Anjos, demônios curvados à minha lei,
E o profundo caos de entranhas fecundas,
Eternidade, espaços, o céu que nos circunda,
Por ti que amarei.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Ensaio em Chauchat

Podendo dizer numa linha
Tua única e linda homenagem,
Mocinha, vendo a tua imagem
A face de Deus me avizinha.

Olhando teu dorso delgado,

Teus olhos cinzentos, quirguizes,
Teus braços, tuas cores, matizes,
O tempo adormece pausado...

Visando lançar meu tormento

Empenho o meu hábil pensar,
"É digno o duro lamento
Humano, progresso onde está?"

Volteio... e estou logo em ti!

Oriento-me ao oriental,
À tua doçura indolente,
Madame, minha dona vestal,

Malina, não mais me adoente

Pois quero te amar no Ural.


Excurso poético

Prestes a escrever mais um poema no papel, penso no poema que ainda não foi escrito, e deverá sê-lo, em nome dos poetas passados e repassados, passados, não ultrapassados, pois o poema, como a filosofia, é perene. Prestes a escrever mais um poema, que já começou a ser escrito, que talvez seja um mau, ou bom, poema, problema: o tema do poema é justamente o poema do tema, que dobra o passado imemorial e sempre presente dos textos já escritos – e que alguns ou muitos leram – mas sempre são os preferidos do poeta que escreve. Malsã, poesia-crime, presente inesgotável do poema inacabado: o poema só acaba quando acaba o homem, misto de morte e fome, insisto, de amor e renome. O poema a me escrever é a história, eu o escrevo com os que me escreveram, com os que me dotaram do amor, desejo: pelo poema. O poeta é o poema do poeta. O poema é a profecia do homem, o tempo-dobradura, quem impede a noite do esquecimento. O poeta-poema resiste na rua.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Partiste

oh, querida, tu me partiste
sem ao menos dar-me tento
de lembrar do esquecimento,
de esquecer minh'alma triste.

oh, querida, tu me partiste,
riste, foi o meu pranto
liso, e tanto o quebranto,
voltei ao céu em lamento.

oh querida, tu me partiste,
fleumática e tão leve,
adeus, digo, e se atreve
manter-me no seu encanto?!

oh, querida, tu me partiste,
difícil ir-me e o coro
do apuros é  puro agouro,
é prenhe da tua verve.


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Trois Haïkus à Cioran

La vie en vaut la peine
S'il n'y a qu'un destin
- La mort et la haine?

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La vie, moïra vilaine,
C'est n'est qu'un tremplin
Qu'au noir amène.

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La vie, femme horsaine,
Celle d'un seule chemin:
L'ivresse de Silène.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Cosmothanatos

é certo, amor, que um dia de repente,
quando o sol não nos vibrar altissonante
e a luz do teu sorriso,
as pétalas largas da face,
não mais refletirem esta tormenta:
nesse dia, eis o imortal.
o teu silêncio,
bradado e brando
rasgará a carne da bochecha
num grito de espanto!
o incompreensível inenarrável
homem pútrido lânguido
que somos, fora;
e em bom intento,
en bonne entente,
a tirânica sucessão cessará
o tempo negro cor de noite
retornará ao ventre
e a terra-mãe, à moléstia primordial,
é certo, amor, se um dia de repente.

sábado, 2 de setembro de 2017

Visita

Um belo dia conheci a morte
E a vadia era uma dama feia
Ela tecia uma horrenda teia,
Onde jazia a nossa senda, sorte.

A sombra dela, imensa, pela vida
Espalha uma dor bem pungente
E com terror assombra toda gente,
Como um tenor atinge uma altiva.

Era uma fera, eu era uma presa,
Fugindo em pressa da felina garra:
Viver é coisa rara.

Ela arrancava da minha presença,
Fazia a ausência de quem eu amava.
Morrer me deprava.