Podendo dizer numa linha
Tua única e linda homenagem,
Mocinha, vendo a tua imagem
A face de Deus me avizinha.
Olhando teu dorso delgado,
Teus olhos cinzentos, quirguizes,
Teus braços, tuas cores, matizes,
O tempo adormece pausado...
Visando lançar meu tormento
Empenho o meu hábil pensar,
"É digno o duro lamento
Humano, progresso onde está?"
Volteio... e estou logo em ti!
Oriento-me ao oriental,
À tua doçura indolente,
Madame, minha dona vestal,
Malina, não mais me adoente
Pois quero te amar no Ural.
terça-feira, 5 de dezembro de 2017
Excurso poético
Prestes a escrever mais um poema
no papel, penso no poema que ainda não foi escrito, e deverá sê-lo, em nome dos
poetas passados e repassados, passados, não ultrapassados, pois o poema, como a
filosofia, é perene. Prestes a escrever mais um poema, que já começou a ser
escrito, que talvez seja um mau, ou bom, poema, problema: o tema do poema é
justamente o poema do tema, que dobra o passado imemorial e sempre presente dos
textos já escritos – e que alguns ou muitos leram – mas sempre são os
preferidos do poeta que escreve. Malsã, poesia-crime, presente inesgotável do
poema inacabado: o poema só acaba quando acaba o homem, misto de morte e fome,
insisto, de amor e renome. O poema a me escrever é a história, eu o escrevo com
os que me escreveram, com os que me dotaram do amor, desejo: pelo poema. O
poeta é o poema do poeta. O poema é a profecia do homem, o tempo-dobradura,
quem impede a noite do esquecimento. O poeta-poema resiste na rua.
quinta-feira, 30 de novembro de 2017
Partiste
oh, querida, tu me partiste
sem ao menos dar-me
tento
de lembrar do esquecimento,
de esquecer minh'alma
triste.
oh, querida, tu me partiste,
riste, foi o meu pranto
liso, e tanto o quebranto,
voltei ao céu em lamento.
oh querida, tu me partiste,
fleumática e tão leve,
adeus, digo, e se atreve
manter-me no seu encanto?!
manter-me no seu encanto?!
oh, querida, tu me partiste,
difícil ir-me e o
coro
do apuros é puro
agouro,
é prenhe da tua
verve.
segunda-feira, 27 de novembro de 2017
Trois Haïkus à Cioran
La vie en vaut la
peine
S'il n'y a qu'un
destin
- La mort et la
haine?
-------
La vie, moïra
vilaine,
C'est n'est qu'un
tremplin
Qu'au noir amène.
------
La vie, femme
horsaine,
Celle d'un seule
chemin:
L'ivresse de
Silène.
terça-feira, 26 de setembro de 2017
Cosmothanatos
é certo, amor, que um dia de repente,
quando o sol não nos vibrar altissonante
e a luz do teu sorriso,
as pétalas largas da face,
não mais refletirem esta tormenta:
nesse dia, eis o imortal.
o teu silêncio,
bradado e brando
rasgará a carne da bochecha
num grito de espanto!
o incompreensível inenarrável
homem pútrido lânguido
que somos, fora;
e em bom intento,
en bonne entente,
a tirânica sucessão cessará
o tempo negro cor de noite
retornará ao ventre
e a terra-mãe, à moléstia primordial,
é certo, amor, se um dia de repente.
quando o sol não nos vibrar altissonante
e a luz do teu sorriso,
as pétalas largas da face,
não mais refletirem esta tormenta:
nesse dia, eis o imortal.
o teu silêncio,
bradado e brando
rasgará a carne da bochecha
num grito de espanto!
o incompreensível inenarrável
homem pútrido lânguido
que somos, fora;
e em bom intento,
en bonne entente,
a tirânica sucessão cessará
o tempo negro cor de noite
retornará ao ventre
e a terra-mãe, à moléstia primordial,
é certo, amor, se um dia de repente.
sábado, 2 de setembro de 2017
Visita
Um belo dia conheci a morte
E a vadia era uma dama feia
Ela tecia uma horrenda teia,
Onde jazia a nossa senda, sorte.
A sombra dela, imensa, pela vida
Espalha uma dor bem pungente
E com terror assombra toda gente,
Como um tenor atinge uma altiva.
Era uma fera, eu era uma presa,
Fugindo em pressa da felina garra:
Viver é coisa rara.
Ela arrancava da minha presença,
Fazia a ausência de quem eu amava.
Morrer me deprava.
E a vadia era uma dama feia
Ela tecia uma horrenda teia,
Onde jazia a nossa senda, sorte.
A sombra dela, imensa, pela vida
Espalha uma dor bem pungente
E com terror assombra toda gente,
Como um tenor atinge uma altiva.
Era uma fera, eu era uma presa,
Fugindo em pressa da felina garra:
Viver é coisa rara.
Ela arrancava da minha presença,
Fazia a ausência de quem eu amava.
Morrer me deprava.
segunda-feira, 14 de agosto de 2017
Tema do poema
Ao tema do poema,
Meu riso de hiena,
Meu escárnio triste,
Meu corpo despido.
Nas palavras, adiste,
No corpo, gangrena,
É o tema do poema.
Como pode ser safena
Do meu pobre coração,
Se quanto mais lembro,
Mais pena
O vulto, a vela, O varão?
O calor ríspido invade,
Corro a porta,
Perco o timão,
Eis a minha tormenta torta!
A minha dissecação!
Seca, sapeca, amena,
Sem cor, sem doce, melena:
O tema do meu poema
É o tema da minha vida.
A língua amansa,
O corpo dança,
A mente trai.
Quem dera o poema
Fosse apenas
Fosse apenas
um haikai.
Mas... Eis o tema!
Um grito me sai!
E envenena...
E envenena...
Obscena,
Olha-me envenenado,
Meu rosto todo marcado
E a face toda serena.
Meu tema,
meu time, teima,
Queimando as doces lembranças.
Se ainda fosse criança...
Gostaria que comigo teimasse.
Mas, não!
Queria que apenas me desse
teu vinco, tua pena, tua esperança...
Enquanto te espero, descansas
Sendo aquilo que me condena.
É o tema do meu poema:
- Morte que vem
serena.
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