A poesia é a boca do que não cala,
Saliva doce, sálvia,
De coco bala,
É o poema, voz
Que entoa a fala.
Um poema é coisa rara.
Sara até dor,
Até uma turva lágrima
Do cansado, do fudido,
E do aflito
Sofre a vida, triste monolito,
Monumento de paixão e grito!
A poesia é sopro, é vento, é língua,
É beijo apaixonado - e odioso,
É levantar teimoso, o demorado gozo...
Ele é amor impune,
O poema, o que nos une,
M'ia noite em claro.
É raro na vida
Que perco, lendo
O poema.
A poesia é mais:
É o destino do poeta
Que do poema perde a poesia
Por não viver
A vida que
Qu'ria.
segunda-feira, 14 de agosto de 2017
domingo, 13 de agosto de 2017
Vau do Jacob
Eis o homem após o vau,
Reduzido a choro e pó,
Ai do homem, qual Jacó
Em apuros e mortal.
Tem a luta um final?
Tem a meta: ser um forte
Combatente frente a morte
Dada a si pelo Abismal.
E a gesta de José,
Anuncia a redenção
Do homem tolo e nu
Que crê na salvação
Como o pobre Esaú,
Preterido em plena Fé.
Reduzido a choro e pó,
Ai do homem, qual Jacó
Em apuros e mortal.
Tem a luta um final?
Tem a meta: ser um forte
Combatente frente a morte
Dada a si pelo Abismal.
E a gesta de José,
Anuncia a redenção
Do homem tolo e nu
Que crê na salvação
Como o pobre Esaú,
Preterido em plena Fé.
quarta-feira, 9 de agosto de 2017
Escatológica n.1
Na encruzilhada da desesperança,
Onde o gris moral se desfez em cal,
Que a noite às claras se despedaçou.
Os selos foram-se abrindo leves
E a trombeta anunciou os seres,
Calando o vulgo, a vida, o mal;
Surgiu, então, a uma infeliz criança
O som fatal e o céu desmoronou.
As coisas eram num total assombro,
As sete igrejas não compreendiam
E homens eram em pleno abandono.
A porta aberta era a plena sorte,
Fora vencido aquele anjo forte,
Todos os males soltos nos desciam;
Leu ele o livro e fez o nosso escombro,
O nosso mal, ser nosso próprio dono.
Onde o gris moral se desfez em cal,
Que a noite às claras se despedaçou.
Os selos foram-se abrindo leves
E a trombeta anunciou os seres,
Calando o vulgo, a vida, o mal;
Surgiu, então, a uma infeliz criança
O som fatal e o céu desmoronou.
As coisas eram num total assombro,
As sete igrejas não compreendiam
E homens eram em pleno abandono.
A porta aberta era a plena sorte,
Fora vencido aquele anjo forte,
Todos os males soltos nos desciam;
Leu ele o livro e fez o nosso escombro,
O nosso mal, ser nosso próprio dono.
quarta-feira, 2 de agosto de 2017
Declinar
Declinei o meu nominativo
A uma mais útil vocação.
Escolhi o rebarbativo
Dia: escaninho e sermão.
Gemi um ganido ativo,
Sofri umas datas sem fim
A dor era em mim um dativo,
Cheguei a sentir dó de mim.
Na dura estrada, uma vida,
Na vida uma noite, um confim,
Nas léguas tão mal percorridas
Fui eu mesmo a perda, um motim.
Como se fosse um genitivo,
Perder-me tornou quem sou eu.
Tornei-me o meu acusativo,
Sendo a minha ação, eu sou meu.
A uma mais útil vocação.
Escolhi o rebarbativo
Dia: escaninho e sermão.
Gemi um ganido ativo,
Sofri umas datas sem fim
A dor era em mim um dativo,
Cheguei a sentir dó de mim.
Na dura estrada, uma vida,
Na vida uma noite, um confim,
Nas léguas tão mal percorridas
Fui eu mesmo a perda, um motim.
Como se fosse um genitivo,
Perder-me tornou quem sou eu.
Tornei-me o meu acusativo,
Sendo a minha ação, eu sou meu.
quarta-feira, 26 de julho de 2017
Mote próprio
De aflição a molhos,
Morre o povo meu,
Curvando-se em geolhos,
Aos dramas, aos prantos, ao céu.
De emoção e piolhos,
Sofre o povo meu,
Pobre e com escolhos,
Sem escola, esmola, ao léu.
O que lhe é próprio? Opróbrio.
O que lhe consome? Fome.
O que lhe assalta? Falta.
O que lhe anima? Rima.
terça-feira, 4 de julho de 2017
Poema Tolo
Estilística da existência,
disse Foucault, sério.
Que penitência!
Filosofar não é ser ator,
é não cindir nossa consciência:
Prefiro ler Pierre Hadot,
Que viver na adolescência.
disse Foucault, sério.
Que penitência!
Filosofar não é ser ator,
é não cindir nossa consciência:
Prefiro ler Pierre Hadot,
Que viver na adolescência.
Herança (Ou Erato)
Amo-te, meu amor, como um infante
Vive perdido amor, tolo e ardente;
Amo-te tanto, como amou a Dante
Beatrice, dele, amiga e confidente.
Amo-te em sanha, em muitos rincões
Onde embrenhei na tua bruta selva,
Dama malina, dama sem perdões,
Que me viola, morte, que me enleva.
Esqueço e lembro de quem tu és filha,
E me anuvia este esquecimento:
Sei! És da memória e do tormento!
Musa minha, cantais por minha boca!
Amo-te e amei-te com a desesperança
De ser mortal e seres minha herança...
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