segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Poema e Poesia

A poesia é a boca do que não cala,
Saliva doce, sálvia,
De coco bala, 
É o poema, voz 
Que entoa a fala.

Um poema é coisa rara.

Sara até dor, 
Até uma turva lágrima
Do cansado, do fudido,
E do aflito
Sofre a vida, triste monolito,
Monumento de paixão e grito!

A poesia é sopro, é vento, é língua,
É beijo apaixonado - e odioso,
É levantar teimoso, o demorado gozo...
Ele é amor impune,
O poema, o que nos une,
M'ia noite em claro.
É raro na vida
Que perco, lendo
O poema.

A poesia é mais:
É o destino do poeta
Que do poema perde a poesia
Por não viver
A vida que
Qu'ria.

domingo, 13 de agosto de 2017

Vau do Jacob

Eis o homem após o vau,
Reduzido a choro e pó,
Ai do homem, qual Jacó
Em apuros e mortal.

Tem a luta um final?
Tem a meta: ser um forte
Combatente frente a morte
Dada a si pelo Abismal.

E a gesta de José,
Anuncia a redenção
Do homem tolo e nu

Que crê na salvação
Como o pobre Esaú,
Preterido em plena Fé.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Escatológica n.1

Na encruzilhada da desesperança,
Onde o gris moral se desfez em cal,
Que a noite às claras se despedaçou.
Os selos foram-se abrindo leves
E a trombeta anunciou os seres,
Calando o vulgo, a vida, o mal;
Surgiu, então, a uma infeliz criança
O som fatal e o céu desmoronou.

As coisas eram num total assombro,
As sete igrejas não compreendiam
E homens eram em pleno abandono.
A porta aberta era a plena sorte,
Fora vencido aquele anjo forte,
Todos os males soltos nos desciam;
Leu ele o livro e fez o nosso escombro,
O nosso mal, ser nosso próprio dono.


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Declinar

Declinei o meu nominativo
A uma mais útil vocação.
Escolhi o rebarbativo
Dia: escaninho e sermão.

Gemi um ganido ativo,
Sofri umas datas sem fim
A dor era em mim um dativo,
Cheguei a sentir dó de mim.

Na dura estrada, uma vida,
Na vida uma noite, um confim,
Nas léguas tão mal percorridas
Fui eu mesmo a perda, um motim.

Como se fosse um genitivo,
Perder-me tornou quem sou eu.
Tornei-me o meu acusativo,
Sendo a minha ação, eu sou meu.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Mote próprio


De aflição a molhos,
Morre o povo meu,
Curvando-se em geolhos,
Aos dramas, aos prantos, ao céu.

De emoção e piolhos,
Sofre o povo meu,
Pobre e com escolhos,
Sem escola, esmola, ao léu.

O que lhe é próprio? Opróbrio.
O que lhe consome? Fome.
O que lhe assalta? Falta.
O que lhe anima? Rima.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Poema Tolo

Estilística da existência,
disse Foucault, sério.

Que penitência!


Filosofar não é ser ator,

é não cindir nossa consciência:

Prefiro ler Pierre Hadot,

Que viver na adolescência.

Herança (Ou Erato)



Amo-te, meu amor, como um infante
Vive perdido amor, tolo e ardente;
Amo-te tanto, como amou a Dante
Beatrice, dele, amiga e confidente.

Amo-te em sanha, em muitos rincões
Onde embrenhei na tua bruta selva,
Dama malina, dama sem perdões,
Que me viola, morte, que me enleva.

Esqueço e lembro de quem tu és filha,
E me anuvia este esquecimento:
Sei! És da memória e do tormento!

Musa minha, cantais por minha boca!
Amo-te e amei-te com a desesperança
De ser mortal e seres minha herança...