Estilística da existência,
disse Foucault, sério.
Que penitência!
Filosofar não é ser ator,
é não cindir nossa consciência:
Prefiro ler Pierre Hadot,
Que viver na adolescência.
terça-feira, 4 de julho de 2017
Herança (Ou Erato)
Amo-te, meu amor, como um infante
Vive perdido amor, tolo e ardente;
Amo-te tanto, como amou a Dante
Beatrice, dele, amiga e confidente.
Amo-te em sanha, em muitos rincões
Onde embrenhei na tua bruta selva,
Dama malina, dama sem perdões,
Que me viola, morte, que me enleva.
Esqueço e lembro de quem tu és filha,
E me anuvia este esquecimento:
Sei! És da memória e do tormento!
Musa minha, cantais por minha boca!
Amo-te e amei-te com a desesperança
De ser mortal e seres minha herança...
domingo, 29 de janeiro de 2017
σκιάς όναρ άνθρωπος
a Joaozinho Gomes
O homem é sonho de uma sombra,
Zumbi, que zomba, em tempo inteiro,
Soçobrando; Feito morteiro,
em veste de alfambra, o homem morre.
O homem nem lembra - e foi penúria,
Passou o tempo, sem passear,
pestanejando, e em um piscar
Foi pra Coimbra, fazer um corre...
E não socorre! Virou penumbra,
Virou pesar.
O homem morre.
Não tem saída. O homem
Morre. Como o poema,
Como o poeta, que quer comer
Este verso de Píndaro.
(E tenta se salvar com aquele que não se salvou
Da morte)
O homem é puro corte,
Pura coorte.
Pura sorte de uma sombra
Que pode sonhar.
Esta sombra sonha que é um homem,
E o homem, que assombra a sombra,
Lembra:
O homem é sonho de uma sombra
Até a penumbra o enlevar.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2017
O Último Riso
Foi-se a noite correndo adentro
Lânguido, louco e nu.
Escrevo o oposto ao nosso amor,
No deslize puro das horas,
"Ainda é cedo?"; ah, me acaloras
A angústia em que me desventro.
Qual seria o epicentro
Do tremor que me acometera?
Seria trevas passageira
Ou solidão onde reentro?
Não contentou-se com quem eu fora,
Sempre quiseste: não sejas tu,
Pois nosso amor jogaste fora,
Lânguido, louco e nu.
Escrevo o oposto ao nosso amor,
Da dor ao riso; adeus, minha flor.
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
Perdi Camões
Perdi Camões nas dobras do meu quarto
E a escansão do nosso amor, perdi.
O amor solene, o amor que era farto,
Insuspeitado, morreu qual dândi.
Do drama dele, este poema é parto
E a despedida de quem te partiste,
Pois já não sei se sou eu que enfarto,
Ou é solidão o que me atingiste.
Perdi Camões e perdi a ti,
Fui te perdendo na perda dele,
Já não recordo da tua pele,
E ainda menos dos bons que vi,
Pois o tormento no qual me vejo,
Faz-me querer lançar-me no Tejo.
E a escansão do nosso amor, perdi.
O amor solene, o amor que era farto,
Insuspeitado, morreu qual dândi.
Do drama dele, este poema é parto
E a despedida de quem te partiste,
Pois já não sei se sou eu que enfarto,
Ou é solidão o que me atingiste.
Perdi Camões e perdi a ti,
Fui te perdendo na perda dele,
Já não recordo da tua pele,
E ainda menos dos bons que vi,
Pois o tormento no qual me vejo,
Faz-me querer lançar-me no Tejo.
Inelutável
Foi do ventre que te vi pela primeira vez
O pescoço arqueei, e admirei a tua beleza,
Doce senhora tão dona de mim.
Lambi-te o desespero e a fria insegurança,
E era ainda criança quando te vi por inteiro.
Em minha adolescência:
Tristeza -
Pouco te vi.
Perdido que estava em outras mulheres,
Tão quentes, vividas e donas de si.
Foi quando adulto me fiz,
E encontrei-te com teu senhor,
Que passa como um corredor,
Seguro, mestre como os Sufis.
Misteriosa e lívida moça
Como uma rês, sinto-me
por reencontrar-te,
Das que rumam para o abate,
Tão sujas, alegres, felizes.
Pois como na Górgia retórica,
Há sempre o inevitável,
Helena inenarrável
Também foi levada por si.
Oh Musa das noites febris,
Oh Dama dos homens servis,
Amo-te e temo-te de um modo inelutável.
És como um temporal,
És a sorte.
És sútil, és viril, és brutal,
És sempre o destino final,
És meu medo, és, Tu, Morte.
O pescoço arqueei, e admirei a tua beleza,
Doce senhora tão dona de mim.
Lambi-te o desespero e a fria insegurança,
E era ainda criança quando te vi por inteiro.
Em minha adolescência:
Tristeza -
Pouco te vi.
Perdido que estava em outras mulheres,
Tão quentes, vividas e donas de si.
Foi quando adulto me fiz,
E encontrei-te com teu senhor,
Que passa como um corredor,
Seguro, mestre como os Sufis.
Misteriosa e lívida moça
Como uma rês, sinto-me
por reencontrar-te,
Das que rumam para o abate,
Tão sujas, alegres, felizes.
Pois como na Górgia retórica,
Há sempre o inevitável,
Helena inenarrável
Também foi levada por si.
Oh Musa das noites febris,
Oh Dama dos homens servis,
Amo-te e temo-te de um modo inelutável.
És como um temporal,
És a sorte.
És sútil, és viril, és brutal,
És sempre o destino final,
És meu medo, és, Tu, Morte.
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
Nosso amor e o mundo
Como falar deste amor
Num mundo tão tresloucado
Que se comete um pecado
Num hino em teu louvor?
Como não falar do amor
em um mundo em tal estado,
Se apenas em ti atado
E amado, não sou ator?
Se arranco de ti o gozo
E todo meu corpo espreita,
O mundo não se ajeita?
Afeito, eu te azeito,
Numa rima esperançosa.
Que morra e nasça rosa!
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