segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Açaí

Em quem viu o gracejo
Daquela saia de moça
Da boca aquosa, poça
Fremiu e pulsou o desejo.

Deliciosamente delicada,
Âmbar: a cor dos seus lábios
Assustava meu olhar sábio,
Que fremia, fervia mas olhava.

Arroxeando lentamente
Em movimentos sutis
O gelo deixando-me ardente,

O ardil de uma doce atriz
Com mil segredos pendentes,
Ela... Fostes! Não tive seu bis.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Tormento

O manto que cobria
A volúpia de nossas noites
Foi esquecido num banco de praça
Sem nome, sem fome, sem graça.

O riso que frequentava
Nossas bocas, meio gozo,
Meio gaza,
Rasgou-se em tua alegria
Fria.

Até então o amor se punha prenhe
Em nossos ventres sedentos
Nos sussuros, nos nossos sopros, nos nossos ventos
Voou como passarinho, abandonando minha passárgada
(Não tive mais na cama a mulher que desejava)

O calor inflamava
A tua bochecha rosada
De prazer, vergonha e pavor
- Eu a provei.

Quando convidei-a novamente
Dentes rangendo, arrefecendo, pleurando,
A bebida amarga da coragem e o peito dilacerado.
Não. Longínquo.

Eis aqui um tormento.
Destes que se deixa em balcões de padaria.
Mas não penses que perderei a vida
Lamentando o que a nós faltou.

Amar vale a pena.
Viver vale a pena.
Sofrer vale a pena.

Azar no amor. Sorte no poema.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Poesia dos sem poesia (fitando os smart)

Três versos, octassílabos
Talhado em pele o metal.
Se é um tanto mais ousado
Pode até tentar uma heróica
Um verso de quinze, talvez.
Dadá, protéica, um gole
De um verso da arte desfeita.
(Nega o verso prometeico,
Tornando à hybris o homem
Já sem fome de nada eterno.)

Você, do mundo um descarte,
Que fita tudo com alegria,
Repete em inglês: sou smart!
Na rede que insta azia.

Homem...
No mundo fomenta os ais
Com os I-pod, i-cloud, i-pad,
Todas as merdas que fomentais!

Faz um favor a si mesmo?
Com teu músculo bem torneado,
De pozinhos e coisas afins,
Cava uma cova profunda,
Enterre tua fronte ossuda
E o mundo vai ser mais feliz!

Noíte Ocídua

Eis mais uma noite ocídua,
Mas quem sua boca tocou
Não foi a boca assídua
Do homem que lhe amou.

Eis noite que vinha à míngua:
O ocre sabor da espera
Guardou-se em mim; e a fera
tocava-se em outra língua.

Soneto de amor estranho
Que fere num apeganho:
Amor que planeja a dor.

Em noite já tão ocídua
Feriu com espinho a flor
A nossa paixão decídua.

Viver

Viver é uma nonada.
No abismo do Ser
Há paixão mal tragada.

Viver é ninharia
Pois razão há de ter
Numa fúria sombria?

Viver, descalabro,
Sem razão há de ter
Ao macabro e glabro.

Viver é um falecer,
Uma constante morte:
O melhor é foder.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Μοῖρα

Louvou-me a vida já gasta,
O drama eivado em papel.
A farsa travestida em fel?
Tal Medéia ou tal Jocasta.

Saudou-me a vida que emplastra,

Agarrando a carcaça ao leito.
Lembrança é o pior defeito,
Feitiço da Moira canastra.

Lumia, vadia, sem luto,

Fatal,o vital escorbuto
Travessa do rio Esquecer.

Lembrou-me a glória a perder

O deus que brincava com os teus
Ao homem querendo ser Deus.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Cópula

Consumidos os corpos
Uma cópula ausente,
A pausa-verbo, o sopro
           Da frase
          ao ventre.