domingo, 11 de maio de 2014

Para amar uma mulher

Para amar uma mulher,
amar-se primeiro é necessário
depois a envolver com os sonhos
e trancar o ciúmes no armário.

Para amar uma mulher
não adianta só ternura
é preciso carícia, é preciso fartura,
uma tamanha preguiça, deitar na carne...

Para amar uma mulher
é preciso mais do que ser um bom sujeito
que tem um bom terno, o carro do ano
e sabe fazer piadas na mesa do jantar.

É preciso nela amarrar o corpo
com nó de marinheiro,
naufragar na saliva
e no suor do ventre.
Naufragar é preciso,
amar não é preciso.

Para amar uma mulher
é preciso ser triste.
Ser triste. E só!
Ser só. É triste, eu sei.
Mas não existe amor fora da tristeza.
Só os tristes amam
e só se ama sendo triste

Para amar uma mulher
é preciso pensá-la para além do rosto
do colo, do útero, do calor noturno.
É preciso que ela seja mulher
e que sendo mulher também não o seja.
Antes de tudo: que seja livre para poder te amar.

Para amar uma mulher ,
é preciso deixá-la livre,
deixá-la linda,
deixá-la firme,
deixá-la...

Para amar uma mulher
é preciso querer buscar as estrelas do céu da boca
e costurar com o canino o lábio descascado pela saliva.
É preciso salvar-se, é preciso arrancar-se do peito,
retornando desfeito e desesperado pela dúvida do amor.


Para amar uma mulher,
antes de tudo que não se faça receitas de mulher.
Que absurdo!
Entregue-se absolutamente ao acontecimento imprevisto
do amor de uma mulher súbita!
Que a declaração fixe o instante presente na eternidade,
que o amor seja esta construção de verdade
não do Um, do Dois, dos dois.

Para amar uma mulher, é preciso amar.
É preciso amar o amor:
ponte entre duas solidões.

Para amar uma mulher,
é preciso amar sofrer.
É preciso amar o traço
o laço, o corpo, o perfume
o atraso da imprevisibilidade feminina.

Para amar uma mulher,
é preciso não idealizá-la.
É preciso vivê-la como um ser único.
Não existe a mulher,
existem mulheres.

Para amar uma mulher,
é preciso amar quem não ama uma mulher,
e mesmo quem não quer amar.
Amar uma mulher é um ato radical de desprendimento:
viver nela o infinito de si.
É respeitar os tipos de amor
o diverso.

Para amar uma mulher,
para te amar, mulher,
não basta escrever poemas.
Há de se poetizar nossa vida
e convencer que o risco vale a pena,
que o riso vale a pena.

Para amar uma mulher,
o risco sempre vale a pena
da escrita.
Convenço-me quando lambo o beijo
e desesperado choro pela nova rejeição.

Para amar uma mulher,
é preciso amar como te amo, mulher.

2 comentários:

  1. Lindo demais! Está escrevendo melhor a cada dia que passa, Rafa. :)

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  2. Obrigado, Dani. Espero poder sempre contar com tua maravilhosa visita por aqui.

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