quinta-feira, 22 de maio de 2014

A Bossa e o Rock


à L.

Um beijo adiantado,
retorcido, tenazmente.
Depois o teu corpo ardente
no meu corpo atado.

Tônico o teu cantar
de agudos anglicizados
eu escuto admirado.
Ah, vive a me encantar!

Fazes bossa no meu corpo
e em minha coragem
diz-me do toque.

Lambendo tua tatuagem,
mordendo a boca,
eu beijo o Rock.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Gym

Ele é forte.
Músculos torneados,
Maltodextrina abundante,
Bíceps que parecem marretas,
Costas feito tronco de cipreste.

Ele se exercita zombando da insignificância dos seres do mundo.
Seres miúdos, tais como formigas e insetos de todos os tipos.
Ele é único em grandiosidade muscular.

Ele se atreve a me olhar.
Percebe que o observo.
Olhar duro,
intimidador e
assustado.
Olhar duro.
Não sabe o porquê dos olhos
que olham.

Ele se aproxima vagarosamente
seus passos são tonitruantes
Elefantásticos.
Torço para que venha e seja interessante como seu corpo bruto:
Não venha falar de carros, sexo, mulheres,
músicas da moda, porres monumentais...
Para falar desses assuntos,
falemos de Chuck Berry e do Rock 'n Roll
- mas daí é exigir demais.

Torço para que se lamente de ter gastado a vida em repetitivos movimentos.
Ironia: gastado a vida ao tentar preservá-la.
Ou ainda pior, tentando impressionar os facilmente impressionáveis.
Quero abraçá-lo. Quero chorar com ele. 
Torço para que faça uma piada sagaz.
Talvez sobre a situação do país, o não vai ter copa,
a incompetência do governo paulista em relação à falta de água.
Quero mais, aliás!
Quero que falemos sobre a triste situação de sermos cobaias de Deus.
Quero que falemos sobre a alegre situação de Deus não existir.
Quero que falemos sobre a Revolução Brasileira.

Não. Não sei se deveríamos.
Sinto inveja dele, confesso:
do modo como se aproxima das garotas nas baladas,
da rigidez na carne abdominal,
da lânguida e fagueira imagem despreocupada.
Um self made man do corpo.

Ele não pára de se aproximar
como um Leão a espreitar sua vítima.
Consigo sentir o hálito do ódio.
Sinto pena. Sinto náusea. Comichões.
Nele não existe culpa.
Acho que a boca se abre.
Prepare-se, 
ele vai dizer!

“Posso revezar com você?”
Ele triplica o peso.
A vida segue.

domingo, 11 de maio de 2014

Para amar uma mulher

Para amar uma mulher,
amar-se primeiro é necessário
depois a envolver com os sonhos
e trancar o ciúmes no armário.

Para amar uma mulher
não adianta só ternura
é preciso carícia, é preciso fartura,
uma tamanha preguiça, deitar na carne...

Para amar uma mulher
é preciso mais do que ser um bom sujeito
que tem um bom terno, o carro do ano
e sabe fazer piadas na mesa do jantar.

É preciso nela amarrar o corpo
com nó de marinheiro,
naufragar na saliva
e no suor do ventre.
Naufragar é preciso,
amar não é preciso.

Para amar uma mulher
é preciso ser triste.
Ser triste. E só!
Ser só. É triste, eu sei.
Mas não existe amor fora da tristeza.
Só os tristes amam
e só se ama sendo triste

Para amar uma mulher
é preciso pensá-la para além do rosto
do colo, do útero, do calor noturno.
É preciso que ela seja mulher
e que sendo mulher também não o seja.
Antes de tudo: que seja livre para poder te amar.

Para amar uma mulher ,
é preciso deixá-la livre,
deixá-la linda,
deixá-la firme,
deixá-la...

Para amar uma mulher
é preciso querer buscar as estrelas do céu da boca
e costurar com o canino o lábio descascado pela saliva.
É preciso salvar-se, é preciso arrancar-se do peito,
retornando desfeito e desesperado pela dúvida do amor.


Para amar uma mulher,
antes de tudo que não se faça receitas de mulher.
Que absurdo!
Entregue-se absolutamente ao acontecimento imprevisto
do amor de uma mulher súbita!
Que a declaração fixe o instante presente na eternidade,
que o amor seja esta construção de verdade
não do Um, do Dois, dos dois.

Para amar uma mulher, é preciso amar.
É preciso amar o amor:
ponte entre duas solidões.

Para amar uma mulher,
é preciso amar sofrer.
É preciso amar o traço
o laço, o corpo, o perfume
o atraso da imprevisibilidade feminina.

Para amar uma mulher,
é preciso não idealizá-la.
É preciso vivê-la como um ser único.
Não existe a mulher,
existem mulheres.

Para amar uma mulher,
é preciso amar quem não ama uma mulher,
e mesmo quem não quer amar.
Amar uma mulher é um ato radical de desprendimento:
viver nela o infinito de si.
É respeitar os tipos de amor
o diverso.

Para amar uma mulher,
para te amar, mulher,
não basta escrever poemas.
Há de se poetizar nossa vida
e convencer que o risco vale a pena,
que o riso vale a pena.

Para amar uma mulher,
o risco sempre vale a pena
da escrita.
Convenço-me quando lambo o beijo
e desesperado choro pela nova rejeição.

Para amar uma mulher,
é preciso amar como te amo, mulher.

domingo, 4 de maio de 2014

Balada da Criança

A criança nasceu na rua
Filha de mãe sem paz
Sua mãe, operária
O seu pai, capataz.

Foi do pavor sem amor
Que nasceu essa menina
Sua mãe gritando: “não!”
Seu pai, braços de oficina.

Pequenina sentia
O peso da rejeição.
Em pranto, sua mãe lhe olhava,
“És um quebranto, és maldição”.

A solução logo veio!
Correr mundo afora,
Tal fora o seu anseio,
Seria sua desforra!

Desde criança prendada
Nas artes da malandragem
Rejeitada e maltratada,
Só lhe restava a pilhagem.

Cortou os cabelos,
Arregaçou as mangas,
Tirou as miçangas,
Manteve os pelos.

Sobreviver não era fácil,
Mais difícil era viver,
Sendo uma pobre menininha,
Então, como fazer?

Quis se tornar homem,
Bruto e mau e feio
Como fora o seu pai que
Às dores das mulheres
Sempre houvera sido alheio.

Reunindo o seu ódio
Da violência desmedida
Afundou no ópio,
arrancando em partida.

Ópio, pó e crack e
Uma menina tão meiguinha
Na São Paulo sob achaque
Ah, tadinha! Tão sozinha!

Oh, coitada da criança
Que na rua então dormia
Protegida e sem lembrança
De sua antiga família.

Mal sabia o que passava
Naquelas noites terríveis
Em que os homens da bala
Disseram: “não vivereis!”

Correu até um posto,
Coisas que a vida ensina,
Esperando ter um gole,
Um gosto, droga divina.

Depois se recolheu
Ao seu canto escurinho
Junto dos braços daquele
Em que chorava carinho.

Este, outra criança,
Sem paz, pai ou esperança,
Sem vida, sentida ardência
De uma vida que só cansa.

Este, um menino,
Envolvido com outros meninos,
Todos ladinos, nem todos malinos,
Todos malandros, todos sem pódio,
Que ofereciam à pobre menina
A sua dose de tédio e ódio.

Oh, pobre menininha,
Foi na noite, submissa,
Que sentiu o estampido,
Que perfurou o seu tecido,
Que tornou-a uma carniça.

Sua culpa, menininha,
Foi ser triste e tão sozinha
Não ter tido outra saída
senão morrer em vida.