segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Verdun

Pouco importa, mulher,
Se hoje não acordarmos cedo,
Não haverá lagrimas, beijos ou fé,
Muito menos lamentos de medo.

Pouco importa, mulher,
Se amanhã não tiver o meu braço,
Haverá com certeza na parede
O retrato de nós dois juntos e a montanha
Imensa como a solidão no coração do homem que parte.

Também não importa, mulher,
Se não conquistei os meus sonhos,
Outros tiveram meus sonhos, por mim fizeram escolhas,
O que posso fazer? Resignar-me e cumprir o meu destino mortal,
Bater-me com outros iguais e deixar minha pele frágil derretida no asfalto.

Não importa, mulher, o teu choro
É vão. É nada. É lixo. É água, nada mais.
Nunca irão te ouvir, minha bela, melhor não te importares,
Sabias disso quando a mim escolhestes.
Nunca seria juiz de província, nem dono de fábrica.
Conflito algum me favoreceria, mulher,
Apenas nos afastaria, apenas me arrancarias do peito.
Não valho o teu choro. Valho alguns francos e uns kilos de ferro.

Nada importa, mulher, nada
Em mim, nada, nunca importou.
Outro amores terá, assim como amores já teve,
Assim como outros homens já deitaram no teu corpo,
Sorveram o mesmo suspiro, e eu que tanto me desesperei por isso,
Hoje vejo: nada importa, nunca importou, a vida não importa.

Viver não importa, mulher,
Portanto não chore. Hoje eu vou,
Amanhã será você, depois o filho guardado na cintura,
E nada mudará. Os mesmos mandarão, os mesmos
Sempre. Mesmo assim, também não importa. Eles
Também morrerão. E todos morreremos. Se hoje parto
Para morrer por aqueles que não são os meus, eu
Já morri.

Viver, para quem vivi?
Por quem esse farda, essa lã?
Vida vã, vida farsa,
Apenas mais um, apenas
Um homem, carcaça,
No chão de Verdun.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Desespero

A poesia vem como um relâmpago,
Rasgando o céu e ardendo a carne.
Há de se estar preparado, Rafael,
Seja sempre senhor de Si,
E perca-se no momento exato,

Sim, perder-se é essencial.
A poesia é o teu Deus.
Por isso, não confie em poetas.
Confie na poesia, na tremelidão,
Na ardência pleusmática dos nervos
E na musa que te lembra a vida.

A vida não tem sentido.
A arte é inútil.
Só o amor é algo, só o amor, Rafael.

A poesia é arte inútil,
Mas vem como o Amor,
Como a paixão, arrebatadora
E frenética, ou nem tanto,
É atlética, é parva e voraz.
Rasga tua intimidade e te lança
No imenso abismo do mundo.

Ainda duvidam da tua verve, Rafael,
Ainda te querem firme
E forte e inumano.
Mas, não, a poesia última é vibração.
Está além da razão, está no corpo,
Está em tudo. Está no meu amor,
principalmente no amor.

A poesia é a guerra alemã
E eu sou a linha Maginot.
Ela vai me vencer
e eu estou desesperado.
A poesia se aproxima:
Está na rua casabranca,
E eu sou Marighella.
Ela vai me matar,
com toda certeza,ela vai.
Ela nem será punida...
No máximo, canções a meu respeito
E homenagens estudantis.
Mas, meu amor, se eu morrer,
A culpa é tua, que me lança nesse estado de nervos,
A culpa é da embriaguez causada pela saudade.

Eu estou pronto.
Se a poesia me matar,
Não é por ela que morro,
É por você, meu amor,
E pela vida. Pois é só uma a verdade:
Os homens morrem e eles não são felizes.

Amantes na Praça

Os olhos negros do moço
Na alva pele rosada
Faziam quase que um fosso
E a moça dava risada.

Os negros braços do moço
E a moça toda agarrada
Naquele imenso alvoroço
- No céu havia a alvorada.

Cabelos negros do moço
Da tribo, lembrança herdada,
Na terra, sofreste o acosso
Do avô da boca sonhada.

Negra cintura e pescoço
Mão que já vem caçoada
Amor vem feito um colosso,
O Amor vem como pedrada.

Deitados na praça em Paris,
O negro e a branca se esbaldam
Amantes que, à mon avis,
Calor e a paixão os escaldam.

Deitados na praça em Paris,
Desafiam toda a estupidez,
- O amor é pulsão, chafariz,
Tem nada que ver com a tez.

Os olhos negros do moço,
Deitados na praça em Paris,
Amor vem feito um colosso,
- O amor é pulsão, chafariz.




terça-feira, 16 de setembro de 2014

A História de Marcela( Parte 1)

A história que irei lhes contar, li-a há algum tempo num livro um tanto quanto raro. O autor, pelo que pude conferir, foi um sertanejo simples que vive de fazer relatos orais dos ocorridos em sua aldeia natal. Resolvi contá-la, pois que a sabedoria popular muitas vezes ensina mais do que dúzias e dúzias de tratados de homens que só sabem pensar abstratamente. É na aldeia natal deste homem que nossa história começa:

I-
A aldeia em que Marcela morava distava igualmente das pradarias do centro da país e do litoral esbranquiçado. Terra de gente brava e trabalhadora, dizia ela, que não passava as tardes sonhando com o além-mar, nem rezando a Santo Antônio pela chegada do amor. O dia era gasto cultivando a terra e suando o rosto. O sol a pino era a garantia de que a vida lhe era plena. Assim pensava.

E não poderia ser de outra forma. O próprio Amor – daquele que se diz com A maiúsculo - era sentimento raro naquelas localidades. Os homens, reunidos no bar, viviam repetindo os causos das curradas que haviam dado à força nas filhas desgarradas do rebanho de suas mães, de como as suas mulheres pediam para serem estapeadas, tanto na hora do coito, quanto quando alguma bobagem faziam, também de como o amor havia sido inventado pelas mulheres a fim de segurarem o ímpeto bravio e macho dos homens-touro. O amor é isso, diziam eles, elas se agarrando a nós.

As mulheres, reunidas em torno do riacho no qual lavavam as roupas e os corpos do mesmo suor fedorento exalado pelos esposos, diferentemente das damas da cidade grande – com seus sonhos bovaryanos –, trocavam informações acerca dos seus casamentos de sucesso, porém não felizes. Elas sabiam que o amor ali significava apenas calhar de encontrar um homem a quem pudessem juntar os trapos e casar, compartilhar, assim, a imundice da tristeza com a ilusão da felicidade e sentir, no íntimo dos corpos, todas as noites, aquela dor prazerosa de um pedaço de carne estranho rasgando as suas entranhas. Não tão estranho, por certo. Os seus homens tornavam-se, pelo costume, extensões de seus corpos fracos. Naquele lugar, elas sabiam, o amor era unicamente uma garantia contra a solidão. O amor é isso, elas diziam, eles entrando em nós.

Surgiu certo dia, Marcela. Parida do ventre de uma analfabeta – por isso ignoramos o nome, não existem registros - e criada por um homem bruto que rascunhava sílabas, ela floriu como há muito árvore ou flor alguma florira na região. Contam que seu nome veio de um viajante: passava na frente do local e predizendo seu futuro livre de pastora, comentou ao seu velho pai que seu nome haveria de ser Marcela, como a infeliz pastora que atormentara Crisóstomo, pois seria ela quem despertaria o Amor naquela aldeia. O pai, crente como dizem ser os aldeões, não se pôs a duvidar e resolveu lhe botar o nome de Marcela. Pensava que o Deus haveria de se vingar se assim não o fizesse e que poderia, ainda mais, ser o próprio Deus aquele viajante misterioso que entrou aqui em nossa história e nela não aparecerá mais.

Aos que não puderam ler Dom Quixote, cabe recordar que o jovem pastor se suicida após ver-se recusado pela dona de formosa beleza. Deixa uma narrativa dizendo caber a ela inescusáveis acusações: como pode um homem ver-se diante de tão bela mulher e não se apaixonar perdidamente, como pode uma mulher recusar um homem que a ama com tanto amor. Em nossa aldeia, todavia, não seriam entendidas tais palavras, visto que o amor era formalidade, uma mera escusa para que os corpos se tocassem e as mesas fossem compartilhadas.

Nada muito distante do que dizem ocorrer nas cidades. Houvera um tempo em que escolher uma moça ou um belo rapaz para saciar as curiosidades da carne era um símbolo de desapego das tradições, não há dúvida. Hoje, pelo que se relata, o medo do Amor é tão grande que nem o medo da solidão faz querer algo mais do que corpos. Ele se cura com outros medos e drogas variadas. Anteriormente, a única droga era o casamento. Hoje, o sexo é um ótimo antídoto contra o Amor.

Marcela, criada sozinha no labor próprio do pastoreio, ao seu redor animais diversos, sempre disso soube. Por isso, desde que comichões em sua carne começaram a brotar, desejando outra pele contra a sua, foi tentar primeiro encontrar o Amor para que pudesse dar algum significado àquela sensação. Se não fizer isto, dizia, igualar-me-ei às cabras e outros animais domésticos nas suas ânsias de prazer. O primeiro Amor que encontrou, naturalmente, foi no corpo de outra mulher. E assim Marcela começou a sua predestinada jornada de trazer as dores e prazeres àquela aldeia tão infeliz. Por isso, acaba aqui o primeiro capítulo.

Súplica Parisiense

à L.

Vem
beija o meu beijo
beija. Foi o começo!

Só te exijo amor.
Quero tua fronte límpida.
E lamber tua frente retinta.
Sentir o teu hálito quente
nas manhãs geladas de Paris.

Juro que te aqueceria!
Seria teu filho e teu berço,
Tua aliança,  teu boneco de gesso.
Deixo-me até moldar.
Molda-me e me mude
Torna-me um homem melhor.

Ou então, cale-me a boca.
Pois, às vezes, queria ficar mesmo é mudo
Pra ouvir o teu sussurro de menina,
o teu gemido,
essa singela música
que embala os meus sonhos.


Serei eu o teu avesso
Por isso o nosso difícil encontro?
Todas as manhãs tem essa coisa que aperta o meu peito
Acho que se chama Saudade.
Em Francês, uma parte de mim que me falta
- Aristófanes, não Platão -
Ai, mas é meu peito indo-lusitano que não cansa de te gritar!

Vem, agarra o meu braço,
segure minhas pernas,
arranhe minhas costas
e vamos fugir.

Para onde vou te levar não existe mais ninguém.
Tem uma pequena fonte de água cristalina
em que o brilho do teu rosto irá se refletir todos os dias ao acordar.
E não haverá tristeza. E não haverá choro. E não haverá nada.
Mas, meu amor, eu me pergunto:
Se não houvesse choro, se não houvesse tristeza, haveria nós?
Talvez sejamos unidos pela nossa tristeza e solidão.
Que seja! Hélas! Lá haveria arte, apenas. 
O teu corpo entrelaçado ao meu como a serpente que entrega a maçã pecaminosa.
E, eu, inocente, entregando-me. Pois nada mais quero. 
Eu sou entregue. 
Sou prisioneiro da bastilha dos teus braços
e a única revolução possível é aquela que grita a tua igualdade
- a tua igualdade, mulher, minha rosa, um mundo igual para que floresças -
a nossa liberdade e a fraternidade:
Os nossos filhos, todo o porvir.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Poeminha de Lamento

Esplêndida e torturante
Olhos de dor e de fúria
A minha longa penúria
É ver-te a me lamentar.

Perdido nos maldizeres,
Ardis dos olhos pedintes,
Requintes, vozes arfantes,
Lágrimas e abraços: lar.

Tão curta parece a vida
Tão longo, o desespero
Que a nossa despedida,

Efeito deste meu erro,
não seja a melhor saída,
pois amo, pois te espero.

Despertar

à L.
Acordar ao teu lado é despertar das certezas
e mesmo duvidar dos sonhos!
Sonho que é sonho precisa ser melhor do que a realidade.

Acordar ao teu lado é beijar o indescritível da existência.
É questionar a razão da poesia.
Quando acordo ao teu lado,
eu maldigo a poesia
e quero a morte dos poetas.

Olhando nos teus olhos doces,
tocando em tuas mãos leves, penso:
Se só no teu corpo reside a poesia,
como podem roubá-la de ti e torná-la em papel?
Ladrões miseráveis!

Os ângulos do teu corpo e do elo dos nossos nomes testemunham
nossa paixão e os nossos múrmurios.
Nem se fosse Deus, seria completo
Sem ser teu, complemente teu.
Teu alimento e teu cão.
Teu homem e teu nada.

Acordar ao teu lado é não precisar mais escrever poesia
- Shh, durma mais um pouco, não quero te acordar.. -
Porque, poesia, eu te vivo.


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Ele

Ele zombava dos poetas
Ele não cria em psicólogos
Nem profetas, nem santos, nem prozac
Ele não ria das agruras dos homens
Nos bolsos, dolores. Na pele, olores.
Em falta, dólares e amores.

Ele não compreendia os encontros e desencontros:
suspeitava do acaso amoroso, dos encontros banais
e dos bajulados beijos de balada
valem nada, me dizia 
Corpos iguais, rostos iguais,
cabelos, vozes, temas
iguais.

Ele buscava significados.
Ele nada significava.

O homem na rua
Buscava a calçada
A cada passo
Ela se afastava
Cuidado, homem:
O farol abriu
Hora de bailar
Ziguezagueando carros
como a guerrilha urbana no Brasil.

Ele era triste
Ele, sério
A barba escondia seu rosto torpe
e sua vida burguesa
estúpida
como as pernas de Teresa.

Um dia, um belo dia
Ele morreu.

sábado, 5 de julho de 2014

Dois Sonetos para Laís

I-
Oh, Rosa de muitos espinhos
Ainda maiores são teus carinhos
E a perdição que é tua boca
Também a paixão quando me toca.

Morena rosa, em ti cativo
Sinto-me vivo, sinto-me prosa,
É o teu beijo o meu alívio
Ai, tua pele é pecaminosa.

Entregue a ti e aos teus caprichos
Amo-te tanto, sou como um bicho,
Linda mulher minuciosa.

Rosa morena, morena rosa,
Rogo pra nossa história veloz
Que creia no amor, creia em nós.

II-
Ela um dia me disse adeus
Ai, deus, então pus-me a rogar
Se ela um dia me abandonar
Rogo, senhor, leve-me aos céus.

Ela me disse não é amor
Amor, lhe digo, com exatidão
Eu curo em ti a solidão
Cura em mim meu desvalor.

Como saber então ao certo
Ou com acerto o que nos há?
Se uma certeza o corpo dá

Quando lhe pego e lhe aperto
Quando me beija e me enlouquece:
Não há mais pressa, não há mais prece.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Aos Covardes Fardados

Armado de violência,
Deu nem bom dia
Deu sim um soco
Na moça esguia.

Armado de violência
E de covardia
Uns homens broncos
à luz do dia.

Estúpido e incoerente,
Seguidor de leis formais.
Qual razão te faz
sentir-se apartado da tua gente?

Farda pose obediência
Alckmista com suas bombas
frente ao povo em consciência
"Permanece! Vai! Não tombas!"

Dizem da violência estatal
Como se o estado fosse um homem
Com porrete, porra e nome.
Mas não!
O Estado é um objeto.
O Estado pertence a poucos
com muitos capangas pagos.
Aqueles lucram como loucos,
Estes nos distribuem afagos.

O meu afago cheirou pimenta,
queimou meu olho e secou minha boca.
De tantas dores me acalenta
Saber da nossa resposta rouca.

De isso tudo, uma lição:
Se eles hoje contêm revoltas,
Não conterão a Revolução.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

A Arte da Frieza

Um dia aprenderei
A arte da frieza
Alçada como lei
em tua fina indelicadeza.

Talvez uma vaga certeza,
Ou uma desdita qualquer,
Invada e ocupe-me a reza,
teu posto, teu corpo, mulher.

Sei talvez não mais importe
ou comporte a presença febril.
Assombra-me o teu ardil.

Sem ti, sem sorte, nem norte,
Sem rosto, sem nome, sem brio.
Apenas vazio. Apenas vazio.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Último Poema

Todo último poema
me parece meu último poema.

Nele tasco meu resto de vida e penso não mais caber.

Pobre de mim!
Sempre acho que a dor acaba.
O que não sei é que sempre há réstia para um último regaço.

O meu último poema é sempre
o meu último fracasso.

A morfo lógico

Mordiscando
                     amor
                               disca

amor denso
                mordência
                                 vem
                amordaçando

Amor dado
                   carnavalizado.

Bocas que devoram
mãos que se adoram
corpos que demoram

A! mora comigo?
Vai... 
          Me adora!
ME GERA
em mil tera
                 BITES
Me sufoca
                         Leve-me, india, 
                                                     à
                          tua OCA.


segunda-feira, 9 de junho de 2014

Cantada n. 3

Cantadas de todas as formas
o homem já ousou tentar
de todos os jeitos, em turmas,
na fila do banco e no bar

Pobres sujeitos tão vis,
desesperados pelo amor,
não pensam na moça que diz,
um “não!” com todo vigor.

Tenho vergonha do homem
oh ser tão pobre e vazio!
Respeite o corpo e o brio
daquelas a quem deve o nome!

Mesmo com o torpe “fiu fiu”
qual moça nunca sentiu
um medo a lhe assaltar?

Pois bem, queridas, proponho
mudanças, um amor mais livre,
Começo: vai e vive!
Depois me acolhe e sonhe

Pois se um dia te disser:
“Sigamos juntos, mulher?”
Não será de maneira fria
Vulgar, medonha... vazia.

Direi, madonna mia:
“sou poeta
quer ser minha poesia”?

domingo, 8 de junho de 2014

Lados

meu lado de dentro
no lado de fora
noves fora
meu lado de fora
no lado de dentro
desventro

no lado de dentro
vinho amor
no lado de fora
verbo calor.

unir o fora e o dentro
no
centro.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Brecht

Se hoje a morte vier,
De forma banal... Qualquer...
Torpor que só nisto consista:
Morto vai mais um artista.

Mas se a morte não basta,
Pra secar minha vida vasta,
Deixo-te de modo simplista:
Lá se foi mais um idealista.

Acaso trouxeres na boca
Meu nome que ainda lhe toca,
Não dê muito na vista:
Só minha ideia persista.

Se hoje a morte me chega,
E nela minha macega,
Minha partida imprevista,
Aqui deixo-te uma pista:

Na terra só há perdão
Se rasgas a legislação.
Lute, chute, resistas:
Às favas todos os juristas!

E que venha em minha Cripta
A seguinte frase inscrita,
Narrando minha maior conquista:
“Já morto, mas jaz comunista”

domingo, 1 de junho de 2014

Um Dia...

Um dia ainda me lanço
Para o lado da inconsistência;
Naquela virá o remanso,
A sede, a dança e a urgência.

Um dia ainda me apego
Me pego, me embrulho, me como
E me afirmando, me nego!
E me libertando, me domo.

Um dia ainda te entrego
Minha vida mesquinha, o mundo...
Às vezes me acho um cego,
Um poeta bem vagabundo.

Um dia ainda me trincho
Como aqueles pobres diabos
Que tem na voz um relincho.
Um dia – juro! - me acabo!

Um dia ainda encontro
Um ponto, um conto só meu.
Então eu irei ao confronto
Do mundo: este fariseu.

Um dia ainda te enfrento
Oh, jovem, estúpido e vil
Que dá mais valor ao quadril
E zombas do meu pensamento.

Um dia ainda me zombo
Um dia não serei sozinho
Um dia... um dia... Um tombo!
Terei paz no meu caminho.

Um dia ainda me lanço
Para o lado da morte imensa.
Pois nela virá o remanso
Desta minha busca infensa.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

A Bossa e o Rock


à L.

Um beijo adiantado,
retorcido, tenazmente.
Depois o teu corpo ardente
no meu corpo atado.

Tônico o teu cantar
de agudos anglicizados
eu escuto admirado.
Ah, vive a me encantar!

Fazes bossa no meu corpo
e em minha coragem
diz-me do toque.

Lambendo tua tatuagem,
mordendo a boca,
eu beijo o Rock.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Gym

Ele é forte.
Músculos torneados,
Maltodextrina abundante,
Bíceps que parecem marretas,
Costas feito tronco de cipreste.

Ele se exercita zombando da insignificância dos seres do mundo.
Seres miúdos, tais como formigas e insetos de todos os tipos.
Ele é único em grandiosidade muscular.

Ele se atreve a me olhar.
Percebe que o observo.
Olhar duro,
intimidador e
assustado.
Olhar duro.
Não sabe o porquê dos olhos
que olham.

Ele se aproxima vagarosamente
seus passos são tonitruantes
Elefantásticos.
Torço para que venha e seja interessante como seu corpo bruto:
Não venha falar de carros, sexo, mulheres,
músicas da moda, porres monumentais...
Para falar desses assuntos,
falemos de Chuck Berry e do Rock 'n Roll
- mas daí é exigir demais.

Torço para que se lamente de ter gastado a vida em repetitivos movimentos.
Ironia: gastado a vida ao tentar preservá-la.
Ou ainda pior, tentando impressionar os facilmente impressionáveis.
Quero abraçá-lo. Quero chorar com ele. 
Torço para que faça uma piada sagaz.
Talvez sobre a situação do país, o não vai ter copa,
a incompetência do governo paulista em relação à falta de água.
Quero mais, aliás!
Quero que falemos sobre a triste situação de sermos cobaias de Deus.
Quero que falemos sobre a alegre situação de Deus não existir.
Quero que falemos sobre a Revolução Brasileira.

Não. Não sei se deveríamos.
Sinto inveja dele, confesso:
do modo como se aproxima das garotas nas baladas,
da rigidez na carne abdominal,
da lânguida e fagueira imagem despreocupada.
Um self made man do corpo.

Ele não pára de se aproximar
como um Leão a espreitar sua vítima.
Consigo sentir o hálito do ódio.
Sinto pena. Sinto náusea. Comichões.
Nele não existe culpa.
Acho que a boca se abre.
Prepare-se, 
ele vai dizer!

“Posso revezar com você?”
Ele triplica o peso.
A vida segue.

domingo, 11 de maio de 2014

Para amar uma mulher

Para amar uma mulher,
amar-se primeiro é necessário
depois a envolver com os sonhos
e trancar o ciúmes no armário.

Para amar uma mulher
não adianta só ternura
é preciso carícia, é preciso fartura,
uma tamanha preguiça, deitar na carne...

Para amar uma mulher
é preciso mais do que ser um bom sujeito
que tem um bom terno, o carro do ano
e sabe fazer piadas na mesa do jantar.

É preciso nela amarrar o corpo
com nó de marinheiro,
naufragar na saliva
e no suor do ventre.
Naufragar é preciso,
amar não é preciso.

Para amar uma mulher
é preciso ser triste.
Ser triste. E só!
Ser só. É triste, eu sei.
Mas não existe amor fora da tristeza.
Só os tristes amam
e só se ama sendo triste

Para amar uma mulher
é preciso pensá-la para além do rosto
do colo, do útero, do calor noturno.
É preciso que ela seja mulher
e que sendo mulher também não o seja.
Antes de tudo: que seja livre para poder te amar.

Para amar uma mulher ,
é preciso deixá-la livre,
deixá-la linda,
deixá-la firme,
deixá-la...

Para amar uma mulher
é preciso querer buscar as estrelas do céu da boca
e costurar com o canino o lábio descascado pela saliva.
É preciso salvar-se, é preciso arrancar-se do peito,
retornando desfeito e desesperado pela dúvida do amor.


Para amar uma mulher,
antes de tudo que não se faça receitas de mulher.
Que absurdo!
Entregue-se absolutamente ao acontecimento imprevisto
do amor de uma mulher súbita!
Que a declaração fixe o instante presente na eternidade,
que o amor seja esta construção de verdade
não do Um, do Dois, dos dois.

Para amar uma mulher, é preciso amar.
É preciso amar o amor:
ponte entre duas solidões.

Para amar uma mulher,
é preciso amar sofrer.
É preciso amar o traço
o laço, o corpo, o perfume
o atraso da imprevisibilidade feminina.

Para amar uma mulher,
é preciso não idealizá-la.
É preciso vivê-la como um ser único.
Não existe a mulher,
existem mulheres.

Para amar uma mulher,
é preciso amar quem não ama uma mulher,
e mesmo quem não quer amar.
Amar uma mulher é um ato radical de desprendimento:
viver nela o infinito de si.
É respeitar os tipos de amor
o diverso.

Para amar uma mulher,
para te amar, mulher,
não basta escrever poemas.
Há de se poetizar nossa vida
e convencer que o risco vale a pena,
que o riso vale a pena.

Para amar uma mulher,
o risco sempre vale a pena
da escrita.
Convenço-me quando lambo o beijo
e desesperado choro pela nova rejeição.

Para amar uma mulher,
é preciso amar como te amo, mulher.

domingo, 4 de maio de 2014

Balada da Criança

A criança nasceu na rua
Filha de mãe sem paz
Sua mãe, operária
O seu pai, capataz.

Foi do pavor sem amor
Que nasceu essa menina
Sua mãe gritando: “não!”
Seu pai, braços de oficina.

Pequenina sentia
O peso da rejeição.
Em pranto, sua mãe lhe olhava,
“És um quebranto, és maldição”.

A solução logo veio!
Correr mundo afora,
Tal fora o seu anseio,
Seria sua desforra!

Desde criança prendada
Nas artes da malandragem
Rejeitada e maltratada,
Só lhe restava a pilhagem.

Cortou os cabelos,
Arregaçou as mangas,
Tirou as miçangas,
Manteve os pelos.

Sobreviver não era fácil,
Mais difícil era viver,
Sendo uma pobre menininha,
Então, como fazer?

Quis se tornar homem,
Bruto e mau e feio
Como fora o seu pai que
Às dores das mulheres
Sempre houvera sido alheio.

Reunindo o seu ódio
Da violência desmedida
Afundou no ópio,
arrancando em partida.

Ópio, pó e crack e
Uma menina tão meiguinha
Na São Paulo sob achaque
Ah, tadinha! Tão sozinha!

Oh, coitada da criança
Que na rua então dormia
Protegida e sem lembrança
De sua antiga família.

Mal sabia o que passava
Naquelas noites terríveis
Em que os homens da bala
Disseram: “não vivereis!”

Correu até um posto,
Coisas que a vida ensina,
Esperando ter um gole,
Um gosto, droga divina.

Depois se recolheu
Ao seu canto escurinho
Junto dos braços daquele
Em que chorava carinho.

Este, outra criança,
Sem paz, pai ou esperança,
Sem vida, sentida ardência
De uma vida que só cansa.

Este, um menino,
Envolvido com outros meninos,
Todos ladinos, nem todos malinos,
Todos malandros, todos sem pódio,
Que ofereciam à pobre menina
A sua dose de tédio e ódio.

Oh, pobre menininha,
Foi na noite, submissa,
Que sentiu o estampido,
Que perfurou o seu tecido,
Que tornou-a uma carniça.

Sua culpa, menininha,
Foi ser triste e tão sozinha
Não ter tido outra saída
senão morrer em vida.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Quando embrenhastes em meu corpo

Quando embrenhastes em meu corpo
Com tua leve audácia juvenil
Encheste e verteste o copo
De vida então nada vazio.

A luz e teu seio desnudo
Lembranças da mais bela tarde
que tu em ligeiro descuido
deste-me teu ventre que arde

Nosso amor, a volúpia escrita,
Decifrou tua foz, o teu leito,
Arrancando da voz, o proveito,
Da garganta, o gozo que grita.

Em tua notável ausência,
Fugidia, mulher sempre livre,
Relembrei todos versos que tive
Embalando a nossa ardência.

"Torna a meu leito, Colombina!
Não procures em outros braços
Os requintes em que se afina
A volúpia dos meus abraços

Os atletas poderão dar-te
O amor próprio das sevícias
Só eu possuo a ingênua arte
das indefiníveis carícias..."

Das delícias e das delícias!

Lamber tua carne que é dura,
Cocegar tua fina cintura,
O sonho que tanto me afeta.

Retomar a nossa ardidura,
Em lábio beijar a costura,
- teu sorriso que é minha meta.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Noite Ocídua


à L.
Ocídua a noite
entrega a língua tua
passos, tatos, restos, rua.

Ocídua a noite
chegando já ao ocaso
danos, panos, somos, caso.

Ocidua a noite,
no teu ranger de dentes
ai, rogo, não mais me tentes.

Oh, dama, da noite ocídua
abriga-me em teus braços
que o mundo se harmoniza

Recosto é minha espádua
de teu cansaço e alegria
carrego em minha anágua
o corpo denso, a língua macia.

Oh deusa, tão linda e breve,
ocídua tal como a noite,
lanço-me em teu corpo leve
pois temo que tu se amoites.

Se amoitares o meu amor
na tua boca bem decídua
não duvides, não foi pouca
nossa noite, noite ocídua.

domingo, 13 de abril de 2014

Dia do Beijo

Enquanto festejou-se o beijo
bocas secas fremiram de pavor
e a cólera foi me colorindo,
cresceram até comichões na minha carne,
houveram culpas pecados lamentações,
viúvas choraram e as moças abandonadas na Central Do Brasil
reclamaram da pouca felicidade, da infância sofrida e do amor
tchau

Aos que tem outra boca, 
uma boca pura e cara,
o encaixe mais-que-perfeito,
aquela cachaça humana,
que nos abana no calor
e no frio nos inflama,
ah... uma cura, uma criatura,
não entendem a inquietude da perda.


Não é uma perda amorosa, pobre homem, entenda!
É a dor humana, estúpido:
Hoje um menino foi espancado e deixou sua mãe sem beijo em casa,
É quase maio, as mães-viúvas são velhas 
e o beijo da morte é o único que lhes resta!


Brecht, salve-me, você estava certo:
não podemos falar de beijos ou de flores
se os beijos só trazem dores
e as flores só mais aperto.


Hoje foi dia do beijo, disseram-me
Ainda espero pelo meu beijo
o beijo que alargará meu pequenino coração.
Não o beijo que anima a poesia,
aquele que sustenta a luta, 
uma boca Clara, uma boca Rosa.
Neste meu coração drummondiano 
não cabem nem as minhas dores mesquinhas e estúpidas.
Preciso alargá-lo. Preciso torná-lo flecha.
arremessá-lo ao ponto mais longe do mundo e recolher 
a humanidade e seus escolhos.
E beijo a moça, e beijo o fraco, e beijo o faminto,
e te beijo também, pois também sou fraco e tenho fome.
Beijo tua boca ferida, beijo a vida,
beijo e sinto o cheiro do ralo.
No dia do beijo, rogo-lhe tua boca Frida,
que se a tiver já não mais me calo!

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Nas coisas

nas coisas, gosto de ver o que as ultrapassa
para além da função primária,
primata,
o que nos assalta, o que não nos passa
à primeira vista.
no riso, o que nos mata.
na morte, o que arrebata.
na ode, o ódio
na pódio, o tédio.
o lodo, a lata.

não ver mais meio
ver mais teu seio
ver meu anseio
de ver.

Poesia é isso:
olhar o mundo e enxergar sorriso.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Minha poesia

Tracejando
em compassos
Meus passos buscam
teus finos traços
Meus braços,
teus castos abraços.

Onde andarás?
meus olhos pedintes
veem todas as passantes
curiosos.
Todos são felizes menos eu?
Nas redes sociais,
sorrisos, poses, haikais.
É normal ser tão sozinho?
.
.
.

Vejo os casais pelas ruas
comparo-me com os homens
armadilhas do amor:
sou péssimo autor, tosco poeta.
Na balança, o pendor
sempre me afasta, nunca te afeta.
Uma companhia, apenas.
Mãos, lábios, tatos e
queimaduras.
E nada mais. 
Ou talvez a morte

Portanto, ouvi-me, moças!
Beijo-as todas
com os olhos.
Se me beijares na boca
- e isto é um convite -
contigo, seria amor.
Estranho, mas o nosso amor.

Não me acolhes nunca.
Nem sei quem tu és
A luminosa étoile du ciel
ou a linda flor do cerrado.
Cerradas as minhas pálpebras
abertas as minhas asas
convido-te, convido-as.

Sei-me sozinho
e isto me afeta,
dá-me até azia.
Moça, suplico:
sou teu poeta,
seja minha poesia?!

segunda-feira, 31 de março de 2014

A língua

Hoje uma menina mostrou
                           a língua e a
                 audácia para mim.

Que menina! Que danada!

Sua língua, olhei
com olhos machadianos
         coração, atento, ao vento:

Saliva
           Lágrima
                            Drama
Alívio
           Lamento
                            Lama

Na língua da menina,
reencontrei
minha inocência perdida
minhas ilusões, meu anéis

Mais do que tudo isso:
a certeza que esse mundo é todo um inço,
uma ferrugem, um homicida.

Na língua da menina,
meus sonhos e
esperanças
de criança
                  - destemida

domingo, 30 de março de 2014

Cantada n.2


Você é bonita!
Ah, é bonita...
Vestida de saia,
tomara-que-caia,
de calça, é bonita!
Você é bonita!
Vestida
de vestido
Despida...
deve ser tão bonita!
Você é bonita!
Vestida
de choro,
de gozo
ou de dor,
ah, é tão bonita!

Mas seria muito mais
bonita:
vestida
em mim.

terça-feira, 25 de março de 2014

Entre livros e lèvres

Entre livros
e lèvres,
entre agravos
e grèves,
alterno entre
dor e esperança.

Todos os dias
emboto meus desejos
com o nó da gravata
da garganta
ao abotoar o paletó.
O sapato engrachado
encaixota meus pés
e sonhos.

Como poderia eu, homem,
fruto de um amor finito
devasso,
fruto do tempo histórico
espírito
fugir da conformidade
pequeno-burguesa
e alçar um vôo universal?

Minha angústia
em nada se compara
à dor da mãe
arrastada
arrancada da vida
pela força policial.
Ao choro de fome
dos meninos sem nome.
À culpa sem culpa
dos sem escolha
dos sem escola
dos sem.

E eu lamentando-me por ser só?!
E eu lamentando-me por não ser Deus?
E eu lamentando-me por não ter um amor?!

Dêem-me licença, burocratas:
agora não é hora de passar com a minha dor!
Já não nos agrada os agravos!
Já faz tempo e a dor é muita!
A chama da esperança que
parecia apagada se renova!
São novos brados, são novas brasas, são novos bravos!
O galo gaulês há de cantar novamente agora
sob a roupagem de uma matreira arara-azul.

Não sou Deus.
Sou somente um.
Sou só.

Entre livros
e lèvres,
busco o meu caminho
sabendo que não,
não há um "meu caminho"
sem o caminho da multidão.

quarta-feira, 12 de março de 2014

O teu dorso é cinzeiro

O teu dorso é cinzeiro
Meus sonhos são brasas
Meus restos sem casa
Sonhos, gozos, asquerosos.

Despetalando o teu corpo,
Minhas mãos de tesoura
Arrancam tua pele e
Podam teus desesperos.

Lambeijando teus seios
Arrancando suspiros e arreios
Testa, orelha, pescoço, osso, quadril
Começo em tua boca
Termine, beibe -" onde já se viu?"

No teu bruço, moça,
O meu brusco e obtuso amor
Nossas dores, nossas cores
E mil e uma noite de amores!

Amor de boite, de butique,
Alambique pródigo cúbico
Dístico arrítmico levítico
Nossos quadris atômicos.

Diz-me frequentemente
" você não existe!"
Jogando-me na dúvida metafísica.

Oh artista do amor!
Oh pele adocicada!
Por que faz isso comigo?
Ainda que rejeitado, antes era!

Desejando meu sexo seco
E meu carinho aguado
Faz-me esquecer meu amor passado
E embriaga meus lábios com teu mel ardente

Ah, se o teu dorso fosse um só
Talvez fosse feliz
Mas assim como eu, não existe.

O teu dorso é cinzeiro,
Pura invenção!
Você são várias e ninguém
Em quem eu curo o meu porre
e minha solidão.



terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Aforismo

Algo me assombra toda vez que vejo um novo monumento erguido mais de mil pés sobre a minha cabeça. A última vez que isto ocorreu foi num passeio noturno - e solitário - pela paulista. Em épocas anteriores, as criações arquitetônicas monumentais, em sua maioria, estavam umbilicalmente ligadas à religião, de maneira que as pirâmides, as igrejas, etc. funcionavam como elementos de um rito que trouxesse unidade a uma comunidade qualquer. Hoje, observando os monumentos contemporâneos, conseguimos observar como o imperativo do capital substitui até mesmo a significação unitária do mito religioso. Constroem-se imensos prédios, shoppings e até Trade Centers, entulhando até a boca de simbolismos e otras cositas más, pedaços de concretos mortos e insignificantes que reproduzem ampliadamente a própria reificação. Eis mais um aspecto do Capitalismo como religião: essa unidade imposta de fora, esse conformar-se a algo que não somos, essa impossibilidade do próprio belo artístico pleno - e consciente - de sentido, é a própria morte do medo da morte. E quando se não tem medo da morte, nada a diferencia desta nossa vida medíocre, controlada e docilizada.

poucas coisas


poucas coisas

ofereço

ao espetáculo da vida

                               Uma feroz inquietação

                                        um encanto na ferida

                               um canto

                                        uma bebida


a ela
                               uma noite mal dormida

                                        meu dorso, meu pulso

                               minha cartilagem carcomida

a ele
                               um braço, uma ajuda

                                        um sonho, um punho

                               um deus que não nos acuda

poucas coisas

ofereço

ao espetáculo da vida

mas sei que em todas elas

                               deixo minh'alma


                                                          e uma despedida.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

não faço poemas belos

não faço poemas belos
não engrandeço deuses, nem
zombo dos homens
não falo de ninfas, nem comparo
mulheres, musas, afrodite

Acredite em mim!

Meu poema é sujo:
tem terra e sangue e um pouco de
porra do trabalhador solitário.
alimentou-se de pão amanhecido e café requentado e pagou fiado
(até riu da placa de “não aceitamos fiado" que sempre estivera ali)

Acostumado a sofrer,
meu poema é triste e resignado:
patrão, rotina e salário.

Mas não ouse desafiá-lo!
De súbito, pode voltar a falar dos clássicos.
Daí para ti que dormiu César:
ele acordará Spártacus!

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Moça que ainda nem bem conheço

Moça que ainda nem bem conheço
         não seja aquela por quem padeço
seja o meu riso, seja meu berço
         da minha prece, seja meu terço
na minha pressa, seja o apreço
Seja o avesso do avesso do avesso
         Seja meu fim, seja meu verso
Confesso:

Este poema é o adereço
deste nosso estranho começo.

domingo, 16 de fevereiro de 2014